Rádio Cidadão

O único hotel da cidade seria minha base de operações. Tinha TV, ar condicionado, e às vezes a internet funcionava e possibilitava contatos fragmentados, com um fazendeiro da região, com quem negociava.

Durante as refeições, a dona do hotel, vestida de faxineira, se assentava à minha mesa, e mastigando alguma coisa, falava de tudo o que acontecia na cidade e fazia todas as perguntas sobre mim. Paciente, demonstrava interesse em suas conversas e respondia o suficiente para satisfazer sua curiosidade.

Quatro dias depois, os negócios estavam finalizados e fui ao balcão para o check out. Ela me entregou a notinha, e se lamentou olhando minha mão "Ah, não aceitamos cartões de crédito!" nem de débito, nem cheques, nem coisa alguma. Como a cidade não tinha Banco do Brasil, procurei a agência dos correios, para tentar um saque de banco postal.

Parei a moto em frente à casa que figurava a logomarca, e entrei pela porta de vidro, me dirigindo ao final da fila de 2 pessoas. O homem do outro lado do balcão me chamou, sem respeitar a fila. "O senhor é o Paulista? Logo vi pela moto!" fiz que sim olhando a moto pelo vidro. Perguntei se seria possível o saque e lhe dei o cartão. Eu ainda tentava imaginar como ele sabia de mim, quando ele, contando o dinheiro e sempre sorridente me inquiriu taxativo: "Comprou a fazenda?"

Essas cidades sem rádio, nem jornal, nem TV, nem nada, contam sempre com um sistema do tipo rádio cidadão, instituição anônima, espontânea, sem fins lucrativos e sem piedade, que por sobre os muros, difundem de forma eficiente todas as manchetes locais.

Me despedi já saindo, e o desconhecido atendente respondeu: "Até, e boa viagem, Sr Jether."