O Tocador

Tem gente pra tudo. Tem o pregador, o construtor, o lavrador, e claro, tem o tocador. O cara que toca o violão. Já sabíamos da existência desse profissional mesmo antes de conhecê-lo, o que, somado ao respeito que todos lhe tinham, gerou em nós grande expectativa.

Depois de pequena ausência, ele estava de volta, e afinava seu instrumento, antes do culto. E a certa altura do programa, o dirigente finalmente propôs o cantar de um hino. E iniciou a música, conforme seu timbre de voz e o que lembrava das notas, sem qualquer preocupação com o acompanhamento musical, deixando o Tocador em apuros. O dirigente cantava sem piedade, seguindo sua métrica particular enquanto o violeiro deslizava atônito seus dedos pelo braço do violão, buscando inutilmente se harmonizar com as vozes da congregação. Eu teria me matado em seu lugar.

Nos primeiros momentos da execução, acostumado à exigência da boa música, fiquei apreensivo com o terrível desacerto. Mas logo percebi que o ambiente parecia assimilar as muitas notas emboladas. Ninguém parecia se importar com o barulho. Mulheres emocionadas em êxtase, o dirigente cantava balbuciando palavras inteligíveis e o Tocador, fazendo sua parte, usava todas as posições e batidas que conhecia, sem qualquer seqüência.

Minha preocupação era em vão. Não havia nada de estranho naquele som. Aquilo era a música para aqueles ouvidos.