O Missionário

O ecoar do som da igreja, anunciava que um evento especial aconteceria naquele culto. Músicas diferentes, playbacks nunca tocados, algo estava mesmo acontecendo. E a certa altura do culto, uma voz diferente da costumeira se fazia ouvir nos auto-falantes. Era o Missionário. Pregador itinerante que, vez por outra, aparece na Região.

Mesmo sem entender as palavras que dizia, distinguíamos sua voz profética, que aos gritos, parecia dar ordens e fazer ameaças. As muitas vozes chorosas do público participante completava o aspecto de exorcismo que assombrou as noites, durante aquele longo fim de semana.

Na segunda-feira, a vida volta ao normal e as pessoas, esquecidas do emocionante momento, retomam seus trabalhos. O Missionário vinha ao encontro de um de seus adeptos e, ao passar por mim, mal respondeu ao meu bom dia, me causando certo desconforto. Certamente eu seria tomado por ele, como o integrante de outra ordem religiosa ameaçadora e que não compareci à sua pregação.

Minutos depois, ele voltava a mim, junto com sua ovelha, que me apontou lhe dizendo, que só eu tinha um carro. Que situação. Ele precisava de meus favores. E superando todas as barreiras me pediu a carona que queria. Bagagem embarcada, carro abastecido e ele interrompeu, Um minuto! exclamou tendo lembrado de algo importante, e correu pela rua. Ao regressar trazia consigo a guitarra da igreja, que tomara emprestada, para um de seus trabalhos em outra localidade.

Ainda não sabemos da real relação dele com aquela igreja de pessoas boas e humildes. Mas a guitarra ainda não voltou.