Meninada

Viver num povoado igual ao nosso, isolado do resto do mundo, exige criatividade e disposição da criançada para aproveitar as férias escolares.

E de noite, podemos ouvir gritos imitando possantes motores e correria, pelas ruas mal iluminadas. Dois grupos estão sempre contracenando um filme de faroeste, uma perseguição policial, uma grande caçada, e tantas outras situações com que a TV e os adultos ensinam sobre heróis.

Certa noite estava difícil distinguir qual era a locação cênica. Ouviam-se palavras de ordem militares e onomatopéias diversas, como de metralhadoras, cavalos e explosões. Uns gritavam enfurecidos, outros riam e todos corria para o outro quarteirão, usando todos os espaços possíveis da vila. Depois os sons indicam a aproximação dos grupos, que passam em disparada pela frente de nossa casa, tão concentrados em sua fantasia, que nem se dão conta de nossa atenção.

Certo dia, depois do grupo passar, ouvimos o sapatear solitário de um muito franzino menino retardatário, de não mais que 4 ou 5 anos, que com o tá tá tá tá tá de sua arma imaginária, tentava alcançar os grandes cavaleiros e se manter na brincadeira. Aqui e ali gritava para que alguém o esperasse e logo aparece um solidário primo ou irmão mais velho, que voltava para arrastá-lo pela mão, salvando sua vida.

E depois de certo tempo, o silêncio volta a reinar absoluto. Umas 9 da noite tudo já acabou e todos desapareceram exaustos em suas casas, para recobrar as energias para o próximo dia de grandes aventuras.

E é assim que a meninada vai alegrando o lugar dos adultos, até que se tornem os adultos do lugar.