Magaiver

Chovia muito naquela noite de domingo, e voltávamos da igreja em nosso fiat 147, eu, Valéria e as 5 crianças apinhadas no banco traseiro.

Semi-acordados, todos contavam com minha capacidade de nos fazer chegar em casa, alheios aos riscos da estrada, tortuosa e mal sinalizada, e à precariedade do carro, que já muito velho e sem qualquer manutenção, funcionava a base de fé e vários remendos caseiros feitos por mim mesmo.

Ainda faltavam uns 3 quilômetros de estrada, e o carro simplesmente apagou o motor. Eu percebi a falta de tração e as luzes acesas no painel, indicando a falha. Tentei ainda reduzir a marcha, numa tentativa quase instintiva de acionar o motor no tranco, mas era inútil. O bichinho pifou mesmo, na pior hora e pior condição.

Parei no acostamento, e o silêncio de todos parecia me perguntar sobre o que tinha acontecido, e suspirando conformado expliquei: o carro quebrou. E o silêncio continuava, mesmo porque o que poderiam dizer ou fazer, senão silenciar? E resignado, tirei a camisa de igreja e sai do carro, mergulhando na torrencial chuva que dificultava o fósforo aceso para iluminar o compartimento do motor.

Bom mecânico das horas do caos, logo descobri o defeito, cuja solução exigia a impossível substituição de uma peça. Retornei ao carro para pensar fora da chuva, contando com a calma dos meus passageiros, enquanto atônito, tentava clarear os pensamentos em busca de qualquer solução.

Um pegador de roupas foi a única coisa que não era de papel dentro do porta-luvas, e com o auxílio de um cortador de unhas, esculpi um apoio para o pedacinho quebrado do platinado, e o carro funcionou, meio que milagrosamente.

Ao chegarmos no sítio, todos foram dormir, em plena normalidade, como se nada de diferente tivesse acontecido, ou se tivessem a certeza de solução para qualquer problema que possa surgir. E não estão de todo enganados. Possivelmente chegaram em casa porque acreditavam que chegariam.

De qualquer forma, passei a andar com algumas peças sobressalentes e ferramentas no porta-malas.