O Sr. Cleiton

Vi que Valéria mudou o semblante olhando lá pra fora, deixando claro que alguém se aproximava, pela porta da cozinha. Mas vi também que havia em seu sorriso e olhar uma mistura de surpresa, curiosidade e interesse. Quem quer que fosse não seria uma ameaça. E sob nossos olhares perplexos, adentrou pela porta, decidido, sorridente e de mão estendida, um menino.

Depois de cumprimenta-la se dirigiu a mim com a mesma desenvoltura. Simpático e de olhar franco, o garoto atraiu nossa atenção de forma especial. Cleiton! se apresentou importante. Poucas formalidades, estava passando e veio "tomar conhecimento" da gente, informou o motivo de sua visita. Questionou sobre tudo e dava pareceres como "acho difícil" ou "vejo isso depois". Sentado com as pernas recolhidas sobre a cadeira, contou de sua família, dos casos do povoado e da vida de todo mundo. Conhecedor do ambiente, apontou os maus e os bons e se comprometeu a providenciar algumas coisas, como o bom cavalheiro que tentava ser.  E se despediu prometendo passar por aqui outra hora.

Não esperávamos encontrar, num lugar tão isolado, um garoto tão desenrolado e articulado. Passamos as horas seguintes comentando maravilhados sobre nosso novo amigo. Inteligente e resolvido, certamente será um cara bem sucedido. E imaginamos por suas soluções práticas, se já fosse adulto, muito poderia nos ajudar.

No dia seguinte, alguém se apresenta como o fornecedor de leite. E completou nosso espanto: O Cleiton me mandou.