Bêbado

Ainda não me refiz completamente do trauma causado por um bêbado infeliz, que parava na porta da igreja gritando em falsete. Êêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêê...  era o som que emitia, estridente e torturante, para concorrer deslealmente com meu indefeso púlpito. E com seu paupérrimo repertório conseguia arrebatar todas as atenções e toda minha paciência.  

Uma igreja, no horário de culto, tem suas portas abertas e estará sempre sujeita a visitas surpreendentes. Cachorros, morcegos, falsos crentes, pombos, insetos e tantas outras coisas que podem desviar olhares e pensamentos. Mas nada se compara a um poderoso bêbado. Revestido de ampla imunidade social, diz o que quer, senta onde quiser, toma a ceia, e ainda desfruta do auto perdão por não lembrar de nada no dia seguinte.

Segurando uma boneca em atitude de reza, aquele bêbado ocupava o primeiro banco, e seu mortal êêêêêêêê parecia festejar sua invencibilidade, quando ao final daquele culto memorável, o miserável cometeu o erro que eu tanto esperei. Não saiu da igreja.

Despedi a congregação e dispensei os que tentavam inutilmente fazê-lo soltar as bíblias e cantores que segurava e, sozinho com ele, dei início a sessão assombração com que sonhei. Ao apagar das luzes o falso doido logo percebeu que algo estava errado. Com seu reinado ameaçado fez jeito de sair, mas o detive, me pondo em seu caminho, que me olhava atônito. Tomei os livros de sua mão e disse grave e aterrador: Agora vou entregar você para Deus!

Em silêncio e acelerado, ele escapou pelo portãozinho e sumiu na escuridão da noite. Continua andando por aí e sempre bêbado. Mas nunca mais atrapalhou o culto.